Simple Coffin

| sábado, 15 de setembro de 2012 | 0 comentários |
Gostaria, encarecidamente, que houvesse uma cápsula do tempo para que eu pudesse não ter presenciado aquele episódio perturbador em minha vida. Até hoje sofro distúrbios emocionais em função daquele momento assustador, pra piorar eu não fui a única pessoa afetada por aquele mal mas também pessoas importantes na minha vida. Pra ser sincera, acho que fui a menos afetada por aquilo, não aguento mais tanta angústia, preciso relatar todo o ocorrido antes de fazer qualquer bobagem.
                Eramos em cinco meninas, quase todas conheci na faculdade. Todas gostavam, basicamente, do mesmo tipo de música, íamos em festas alternativas, pubs da cidade, shows de bandas que a gente gostava. Na verdade tínhamos uma vida normal como qualquer pessoa do cenário a qual frequentávamos. Sinto tanta falta das minhas amigas Maria Clara, Flávia, Luísa e Suelene, mas cada uma teve o seu destino e posso dizer que não foram os melhores destinos que qualquer pessoa gostaria de ter.
                Tudo começou em uma conversa de chat, sobre uma banda que todas gostavam, essa banda chamava Simple Coffin. Até hoje não sei definir o gênero dessa banda, aliás, hoje em dia prefiro nem citar o nome dela, pois só de relatar o que aconteceu, estou sentindo calafrios. Enfim, era uma noite de sexta-feira, do ano de 2012, as férias estavam acabando e na semana seguinte teríamos que voltar à faculdade e ao trabalho, então não estávamos com tanto ânimo para sair como eventualmente fazíamos, então criei uma conversa em grupo no chat do grupo que criamos. Todas estavam on line, então ficamos a noite toda conversando sobre os assuntos em comum.
                -Pessoal, vamos combinar de fazer alguma coisa amanhã ou domingo antes das aulas, porque depois acredito que a gente não tenha muito tempo para as nossas reuniões. – sugeri.
                -Ah, eu acho ótimo, eu topo! – disse a Flávia.
                -Bem, por mim tudo bem, mas tem que ser na sua casa, Leonora. – informou a Luísa.
                -Tá, podem vir em casa, vamos fazer amanhã então, já que os meus pais vão em um casamento, a casa estará liberada, mas o que vamos fazer? Na verdade já enjoei de fazer cup-cakes e pizza, o que sugerem?
                -Já sei! Eu tenho um dvd do Simple Coffin que comprei no sebo do centro, nunca assisti, já que todas gostam da banda, acho que é uma boa idéia a gente assistir na sua casa. – informou a Flávia com toda empolgação representada pela maneira que ela digitou a mensagem.
                -Ah, mas qual DVD do Simple Coffin você tem? Se duvidar eu tenho aqui e você não precisa nem trazer, mas ótima ideia.
                -Não sei, é um que não sei dizer qual é, não tem uma capa e o dvd só está escrito Simple Coffin com a fonte deles e mais nada, acho que é algum dvd raro.
                -Ah, traga mesmo assim, a gente vê qual é, tenho vários aqui mas esse eu desconheço, traga.
                Todas concordaram com a ideia, compraríamos algumas cervejas, coisas pra comer e ficaríamos vendo o dvd, aquela ideia me empolgou bastante, voltei a ficar animada, mesmo sabendo que na segunda-feira voltaria tudo novamente, ao menos era o que eu imaginava que iria acontecer.
                Na manha seguinte, disse aos meus pais que as meninas viriam em casa para uma reuniãozinha de despedida das férias, eles não acharam problema algum e concordaram com a visita delas. A casa já estava arrumada, mas fui ajeitando as coisas que a gente gosta de fazer, arrumei o meu quarto, testei o dvd da sala e estava tudo certo. Meus pais estavam indo pro casamento e eu fiquei esperando as meninas chegarem. Como de costume, cada uma trás alguma coisa e quando chegam, vejo o que está faltando e compro essas coisas que faltam. Finalmente elas chegaram, chequei o que eu precisava comprar e disse pra Flávia e a Maria Clara irem comigo ao mercado e, então, comprei os itens que faltavam para a nossa reunião.
                Estava ansiosa para ver o dvd, então pedi a Flávia que ela mostrasse logo, mas a maioria decidiu comer alguma coisa e beber um pouco antes de assistir.
                -O que vocês acham de escutarmos o álbum mais clichê deles enquanto a gente prepara algo pra comer e beber um pouco? Ah, eu daria tudo para que o James Coffin estivesse vivo, eu queria muito ir em algum show deles.
                -Ah Leonora, também gostaria, infelizmente eles não colocariam outro vocalista no lugar do James, a voz dele era muito peculiar, os outros membros até estão com outros projetos, mas que é uma pena, isso é verdade. – disse a Luísa.
                Simple Coffin acabou em 2001, quando o vocalista James Coffin (esse era o nome usado por ele na banda) cometeu suicídio, ninguém sabe o verdadeiro motivo por ele ter feito isso, há algumas especulações de que ele sofria de depressão e não aguentou a pressão do sucesso da banda, outras pessoas dizem que ele morreu de overdose, mas ninguém sabe, de fato, o que aconteceu com ele.
                Escutamos o No life for a nameless na íntegra, mas a curiosidade tomou conta de todas nós, então finalmente decidimos assistir o dvd estranho que a Flávia trouxe. Acredito que as meninas gostavam de assistir qualquer coisa na minha casa, pois a minha televisão é bem grande, então, dá pra ver pequenos detalhes nela. Liguei o aparelho e coloquei o dvd, a reprodução demorou um pouco, mas pensamos que isso pudesse ser normal, já que o dvd não tinha nem capa.
                O dvd não tinha introdução de empresa alguma de filmagem nem logo de gravadora, ele iniciava com as seguintes frases:
                “Idolatry is the worst mistake” – “Idolatria é o pior erro”
                “Now, is time to show who you are” – “Agora é hora de mostrar quem você é”
                “After you will choice between madness and death” – “Depois você irá escolher entre a loucura e a morte”
                “2.002”
                Quando surgiu o ano de 2.002 e esses dizeres, pensamos logo que pudesse ser um dvd em homenagem ao James, já que ele morreu em 2001, então poderia ser algum show tributo com outros vocalistas ou então algum dvd gravado antes e gravado posteriormente, mas quanto a isso não achamos nada estranho, afinal vários artistas morrem e depois as gravadoras produzem coisas deles ainda.
                Depois desses dizeres, apareceu uma cena de um quarto completamente vazio, onde só havia um caixão simples, o que pra gente era normal, pois era o símbolo da banda e o nome da banda, em todos os clipes e shows aparecia esse caixão. Não tocava música alguma, nem mesmo a mais conhecida deles do álbum que eu já citei, que por sinal tinha o mesmo nome. Peguei o controle e já fui direto pro menu, mas só aparecia o símbolo de comando não permitido.
                -Flávia, acho que você comprou um dvd com problemas, você nunca compra coisas em sebos, por que comprou esse lixo? – disse a Suelene.
                -Ah, como ia saber? Nunca tinha visto esse dvd em lugar algum pra comprar, aliás, ne sabia que ele existia… pode ser o aparelho da Leonora que deve estar co problemas.
                -Meu aparelho não está com problemas, criatura.
                Depois o caixão se abriu, e, obviamente, o James saiu dele. Ele saiu bem devagar, só que com uma máscara e veio em direção à câmera, ele ficou parado e assim começou a introdução de uma música que a gente desconhecia. Todas as músicas do Simple Coffin eram pesadas e agitadas, não tinham toques melancólicos em nenhuma delas, só que essa era bem melancólica, a introdução da música lembrava as introduções de quaisquer músicas de depressive black metal, o que era muito estranho. Quando a introdução começou, meu cachorro latia demais e logo em seguida ele foi pra longe da área em frente a sala. O som da guitarra se transformou em alguma coisa agonizante, que parecia mais um arranhão de unha em um quadro negro, a bateria parecia que estava totalmente quebrada e os pratos eram latas, dava pra escutar no fundo sons de pessoas gritando agonizadamente, ruídos e risadas.
O James permanecia parado na nossa frente, todas nós ficamos nos olhando assustadas, até que a primeira a reagir de maneira estranha foi a Suelene. A Su, como a gente costumava chamar, era uma menina de estatura baixa, cabelos compridos, usava óculos e tinha a personalidade forte, ela mesma se intitulava como a chata que não ria de quase nada, só que dessa vez ela achou o vídeo muito engraçado e teve um forte ataque de histeria.
-Hahahahahahahahahahahaha, nunca ouvi algo tão engraçado como isso, essas pessoas berrando, essas risadas. Gente, isso foi muito bom, adorei esse dvd, me empresta Flávia, ele é muito engraçado.
Suelene não conseguia falar sem rir, seu comportamento era similar de uma pessoa completamente bêbada no estado alegre, só que a risada da nossa amiga era ao mesmo tempo uma risada de desespero, de algo que ela precisava tirar do seu interior, aquilo foi muito estranho, não sabíamos o que fazer, porém pensávamos que aquilo seria a única coisa estranha que iria acontecer e depois que a Su descansasse, ela iria voltar a sanidade, mas infelizmente isso estava longe de acontecer.
Aquela imagem na TV estava perturbando a todos, certamente, então comecei a perceber que algo estranho estava acontecendo, não era normal a reação da Suelene, o que ela via de tão engraçado em tudo aquilo? Era apenas uma imagem intrigante na televisão, uma música perturbadora e o James não fazia nada mais do que ficar parado em frente a câmera. Logo em seguida, a Luísa começa a tremer e a falar em um idioma que todas nós desconhecíamos. A Luísa era a baixista da banda que eu fazia parte, quase com as mesmas características físicas da Suelene, um pouco mais alta, só que considerada a mais boazinha do nosso grupo de amigos, mas de boazinha ela não demonstrava nada naquele momento.
Seu rosto demonstrava uma revolta imensa e enquanto ela tremia, ela rangia os dentes como se todas nós fossemos culpadas por coisas ruins que pudessem ter acontecido com ela, ao mesmo tempo que todas essas coisas estranhas acontecia, ela ameaçava agredir a Maria Clara, a Flávia e eu, como se a gente tivesse culpa pelo estado da Suelene.
-Eu odeio todas vocês, tenho nojo, repulsa! Da mesma forma que odeio a minha vida…
Enquanto ela dizia essas coisas sem nexo algum, o clipe que passava na minha televisão ficava cada vez mais distorcido e o som a mesma coisa. Aquilo tava me deixando aterrorizada, portanto resolvi tirar o dvd, pois tive absoluta certeza de que aquilo estava afetando a todos, mas quando fui fazer isso, a Maria Clara e a Flávia me seguraram.
-Deixe o dvd!
Nunca vi a Flávia falando assim comigo, afinal somos melhores amigas, mas isso não foi o que mais me deixou com medo dela e sim o que eu via em seu rosto. Sempre achei a minha amiga super bonita, ela era a única ruiva do grupo, pele muito branca, da minha altura, junto a mim, a mais estranha e a mais sensata das meninas do grupo . Mas naquele momento vi que o seu rosto estava com uma fisionomia grotesca, seu sorriso parecia a de um monstro e seu olhar não demonstrava emoção alguma. Quanto a Maria Clara, que era a mais desencanada, também era muito próxima a mim, tinha a pele bem clara, longos cabelos escuros e estatura baixa, mas naquele momento estava com as características parecidas com as da Flávia. Pedi para que elas me soltassem e o meu pedido foi atendido.
Quando elas me soltaram, as duas começaram a dançar algo que parecia um ritual de uma ceita qualquer e quando começaram a dançar, senti o meu corpo totalmente estranho. Não sei como lembro de como fiquei, mas comecei a berrar e a chorar como no video, parecendo um pedido de socorro, algo me sufocava. Depois de todas serem tomadas por energias malignas, o nosso ídolo se aproxima mais um pouco da tela, dessa vez ocupando uma boa parte da tela só no seu rosto e então ele resolve tirar a máscara.
Acreditava que todas aquelas coisas estranhas que aconteceram comigo e com as minhas amigas parassem por ali, mas no exato momento em que ele tirou a máscara, todas nós olhamos fixamente para a tela e vimos a coisa mais medonha que poderíamos descrever em nossas vidas: o rosto do nosso ídolo James estava deteriorado, como normalmente ficam os cadáveres em estado de decomposição e a voz dele estava totalmente distorcida e emitia sons graves sem nenhuma frase verbal.
Logo em seguida, o filme acaba e a tela fica preta. Conseguimos nos desligar da energia maligna que nos afetava, porém, a partir daquele dia, todas nós passamos a sofrer de alguma perturbação irreversível. Tentamos procurar qualquer fonte relacionada aquele dvd, mas não achamos absolutamente nada. A pressão daquele episódio foi tão forte que deixou sequelas em todas nós. Tentei me suicidar três vezes, depois desse episódio, pois tenho pesadelos horríveis com James.  Não sei até quando vou conseguir viver com isso, não quero ter o mesmo destino que elas, nunca mais as vi.


               Imagem ilustrativa: 
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